sábado, 25 de dezembro de 2010

Grito


(Texto de Lila Ripoll)

Não, não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária. Definida.

As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo

Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.

Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.

Serei eu mesma. Estarei
inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada de amargor.

Não. Não irei sem grito.

Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —

que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.

Je repars à zéro

Nunca gostei do clima de "Ano Novo, vida nova" que se instala nessa época do ano. Sempre achei idiota, e hipócrita acreditar e declarar que no ano seguinte tudo será diferente. Como se fosse possível desfazer nossos erros assim que o relógio muda de 23:59 do dia 31 de dezembro, para 00:00 do dia primeiro do ano seguinte.
Mas não consegui não me contaminar.
Mudei muito nesse ano que passou. Muito mesmo.Essa mudança foi muito gradual. Tão gradual que não percebi. Tão gradual, que quando olhei meu reflexo no espelho, tomei um susto ao não me reconhecer. Consequentemente acredito que o ano que vem será diferente (Ou talvez o verbo seja, ao invés de acreditar, torcer).
Foi um ano muito intenso, como prometia ser. Um ano que marcou o ínicio de uma nova etapa na minha vida. Um ano em que aprendi muito. Inclusive com meus erros. Mas um ano que me deixou também, no meio de recordações maravilhosas, muita mágoa.
Mme permitirei um luxo, que acredito ser necessário para fechar mais um ciclo: Zerar.
Quero usar tudo isso pra acender a caldeira que irá alimentar a minha locomotiva, sem invocar à todo tempo estas lembranças. Sem querer reviver, nem fugir do que passou. Me refiro tanto às coisas boas como às ruins.
Confuso, não? Deixa eu postar uma música, que acho que ajuda. E será meu hino neste ano que ainda nem chegou.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nota importante - Remedinho simples


Não há nada que uma boa companhia e um pôr-do-sol lindo não resolvam.

Descansa coração



Cansei de tanto procurar
Cansei de não achar
Cansei de tanto encontrar
Cansei de me perder

Hoje eu quero somente esquecer
Quero o corpo sem qualquer querer
Tenhos os olhos tão cansados de te ver
Na memória, no sonho e em vão

Não sei pra onde vou
Não sei
Se vou ou vou ficar
Pensei, não quero mais pensar
Cansei de esperar

Agora nem sei mais o que querer
E a noite não tarda a nascer
Descansa coração e bate em paz

Nota importante - Maldito alfinete


Dormi.
Não sei com quem, e nem onde estava. Mas sei que estava bem.
Mas, como acontece todas as manhãs, acordei, e voltei a sentir em meu corpo o peso do cansaço, em meu peito o peso da mágoa e em minha cabeça o peso da desilusão...
Mas ainda assim me pergunto com quem estava.
Não me vem uma voz, um rosto, um gesto...não me vem nada, não é possível.
Com minha teimosia, já misturada com minha curiosidade, continuo revirando cada canto da minha memória atras de qualquer vestígio, atrás de qualquer letra, qualquer cheiro... calma...lembro-me de uma sensação...e com uma euforia absurda, e sempre crescente, monto o quebra cabeça da imagem do meu alento...é isso...já sei. Descobri. Eureka.
Então, depois de experimentar alguns segundos de felicidade, por reviver um pouco do que tinha sonhado, dessa vez acordada, senti minha alegria se esvair, como um balão que murcha depois do encontro com um  maldito alfinete no fim da festa, que no meu caso se chamava realidade. Era sonho apenas. E somente lá esse encontro era possível...
E como um mantra, tenho repetido pra mim, desde que despertei: era sonho apenas. Na tentativa de diminuir minha ansiedade pela chegada da noite, de diminuir a espera pelo possível próximo encontro.
Era sonho apenas. Era sonho apenas...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Em 2010, constatei que...

...que arte é abstrata demais. E que sou uma artista que tem dificuldades com abstrações;
...que é moda ser ateu;
...que guardei muito foda-se;
...que leite condesado é demais, e com chocolate é um ótimo remédio pra tristeza;
...que me dou demais. Que espero demais. Que me dedico demais, e que por isso, quando a pessoa me decepciona, é minha culpa, e não dela;
...que mentir é saudável. Tem verdades que é melhor não serem ditas;
...que minha fé aumenta cada dia mais;
...que morango é uma delicia;
...que meu juíz mais severo, sou eu mesma;
...que não devo me culpar quando me sentir interesseira. Todas as relações humanas são por interesse, até a relação dos fiéis com Deus, não deixa de ser também;
...que não devo tentar agradar ninguém. Afinal ao me relacionar com alguém, em todas as esferas, suporto muito bem os defeitos delas. Nada mais justo que suportem os meus também;
...que não sou insubstituível para ninguém. Para alguns pode levar mais ou menos tempo para que uma outra pessoa preencha a falta que posso fazer, mas haverá, sempre, esse alguém;
...que não sou justa. Começo a acreditar, inclusive, que justiça não passa de uma utopia;
...que não importa o que eu faça, vai ter gente que simplesmente não vai gostar de mim. O que é um direito, bem como a recíproca disso;
...que nem todos estão dispostos a fazer favores, ou se o fizer jogarão isso na cara sempre que possível. Como se fazer um favor a alguém fosse uma moeda de crédito.
...que o ponteiro do relógio gira sempre em sentido horário, nunca o contrário;
...que o reflexo da lua no mar, me toca cada dia mais;
...que os dialógos na maioria das vezes, tendem a ser dois monólogos. E geralmente se disputa qual monólogo é o mais interessante. Ahh! E fazer monólogos também está na moda;
...que preciso aprender a ter tempo. Se sempre tiver que esperar ter tempo para fazer as coisas, não farei nunca, porque nunca terei tempo;
...que preciso aprender piano e acordeon;
...que preciso de um novo nome pro meu blog;
...que preciso me desafiar o tempo todo, se não o jogo perde a graça pra mim;
...que quero me apaixonar;
...que quero perder o controle. Controle demais cansa;
...que quero ser conquistada; Quero um pouco de férias de conquistar;
...que sou engraçada. Mas nem todos vão achar graça, e que isso é perfeitamente normal;
...que sou grossa;
...que tá na hora de falar mais e falar menos;
...que tenho pavil curto;
...que uma folha em branco (seja ela real, ou virtual) é a melhor forma de esvaziar a mente. Seja por escrever tudo , ou seja por simplesmente perder tudo que estava lá dentro, sem chegar a escrever nenhum caractere;
...que vou entrar 2011 meio amarga;

(...)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Estado de espírito

Agora tudo o que eu sinto é cansaço. Muito cansaço. Mas é muito, muito cansaç..............

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Versos Intímos




Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Bandido bom, é bandido morto?


Estava, calmamente, passeando pelo facebook, quando me deparei com a seguinte frase "bandido bom, é bandido morto".
Imagino que o impulso para postar essa frase tenha sido essa guerra que está ocorrendo no Rio de Janeiro, que fez o país voltar os olhos para lá, e torcer para que todos os bandidos sejam aniquilados pela polícia, e dessa forma  o Rio esteja a salvo de toda violência que o tem destacado. Essa frase, a do bandido, me fez pensar um pouco. E enquanto escrevo, meus neurônios continuam trabalhando e discutindo, tentando chegar em um consenso. Mas até agora...nada feito.
Moro em um bairro perigoso, (aliás, em Salvador, qual bairro não é perigoso?) e saio todos os dias com medo. Sinto muita raiva de bandido, e se dissesse que nunca desejei a morte de um desses sacanas que me ameaçaram em algum momento, ou ameaçaram alguém da minha família, eu estaria mentindo. Mas isso não é sufiente para me fazer concordar com a frase motriz desse post.
Temos que lembrar de uma coisa...os bandidos não nasceram do nada. Não acredito na geração espontânea nem do Universo, quanto mais de um problema social. E se este problema não for sanado, de que adianta matar os bandidos, se outros nascerão, e darão continuidade à cadeia "alimentar"?!?

Fecho esse post com o mestre Gabriel, O pensador :

NUNCA SERÃO



Eu caminhava no meu Rio de Janeiro quando alguém me parou e falou:
"Aê parceiro, me dá tua mão que eu quero ver se tá com cheiro
Porque eu sou um cara honesto e detesto maconheiro"
Eu tinha acabado de sair do banheiro e dei a mão pra ele cheirar
Mas foi uma cena bisonha
Ele cheirou a minha mão por um tempo e eu disse:
Espera, tu não é o Capitão Nascimento?
Que vergonha, meu capitão
Procurando maconha no calçadão
Qual é a tua missão?
Eu vi teu filme mas não me leva a mal
Não me tortura assim não que eu sou um cara legal
Em certas coisas eu concordo contigo
Mas não é assim que você vai achar os grandes bandidos
Esse país tá fodido
Ele falou: 'Eu sei disso
Quando eu entrei na PM, eu assumi um compromisso, eu luto pela justiça'
Eu também
Sem justiça não tem paz e sem paz eu sou refém
A injustiça é cega e a justiça enxerga bem
Mas só quando convém
A lei é do mais forte, no Bope ou na Febem
Na boca ou no Supremo
Que justiça a gente tem, que justiça nós queremos?
Os corruptos cassados?
Nunca serão!
Cidadãos bem informados?
Nunca serão!
Hospitais bem equipados?
Nunca serão! Nunca serão!! Nunca serão!!!
Os impostos bem usados?
Nunca serão!
Os menores educados?
Nunca serão!
Todos alfabetizados?
Nunca serão! Nunca serão!! Nunca serão!!!
Capitão, não sei se você soube dessa história
Que rolou num povoado peruano se não me falha a memória
Um político foi morto pelo povo
Um corrupto linchado por um povo que cansou de desrespeito
E resolveu fazer justiça desse jeito
Foi um linchamento, foi um mau exemplo
Foi um mau exemplo mas não deixa de ser um exemplo
Eu sou contra a violência mas aqui a gente peca por excesso de paciência
Com o "rouba mas faz" dos verdadeiros marginais
Chamados de "doutor" e "vossa excelência"
Cujos nomes não preciso dizer
A imprensa publica, mas tudo indica que a justiça não lê
Diz que é cega, mais o lado dos colegas ela sempre vê
Capitão, isso é um serviço pra você!
Deputado! Pede pra sair!
Pede pra sair, deputado!
Sabe o que você é? Um muleque, é isso que você é
Senador, pede pra sair!
(Desisto!)
Mais alto senador!
(Desisto!)
Vagabundo, cadê o dinheiro que você desviou dessa obra aqui?
(Eu não sei não!)
Fala, Vossa Excelência, é melhor falar!
(Eu não sei!)
Cadê a verba da merenda que sumiu?
02, o corrupto não quer falar não! Pode pegar o cabo de vassoura!
(Tá bom, eu vou falar, eu vou falar!)
Os corruptos cassados?
Nunca serão!
Cidadãos bem informados?
Nunca serão!
Hospitais bem equipados?
Nunca serão! Nunca serão!! Nunca serão!!!
Os impostos bem usados?
Nunca serão!
Os menores educados?
Nunca serão!
Todos alfabetizados?
Nunca serão! Nunca serão!! Nunca serão!!!
Conversei com o Nascimento que não pensa como eu penso mas pensando nós chegamos num consenso
Nós somos vítimas da violência estúpida que afeta todo mundo, menos esses vagabundos lá da cúpula corrupta hipócrita e nojenta
Que alimenta a desigualdade e da desigualdade se alimenta
Mantendo essa política perversa
Que joga preto contra branco, pobre contra rico e vice-versa
Pra eles isso é jogo, esse é o jogo
Se morre mais um assaltante ou mais um assaltado, tanto faz
Pra eles não importa, gente viva ou gente morta
É tudo a mesma merda
Os velhos nas portas dos hospitais, as crianças mendigando nos sinais
Pra eles nós somos todos iguais
Operários, empresários e presidiários e policiais
Nós somos os otários ideiais
Enquanto a gente sua e morre
Só os bandidos de gravata seguem faturando e descansando em paz
Enquanto esses covardes continuam livres, nós só temos grades
Liberdade já não temos mais!
Nunca serão!
Nunca serão!
Nunca serão! Nunca serão !! Nunca serão !!!
Nunca serão!
Nunca serão!
Nunca serão! Nunca serão !! Nunca serão !!!

Boa 06, também atirando com o meu fuzil fica fácil, né?
Caveira!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Soneto a Quatro Mãos

Por Vinicius de Moraes

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.


Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.


Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.


Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Carta aos Companheiros!

Essa foi uma carta que escrevi, depois de um susto, para minha turma, que agora está em processo de montagem de um texto de Dias Gomes: Campeões do Mundo.

Olá Companheiros,


Neste sábado, não fomos ao Estádio de Pituaçú fazer nosso laboratório, como desejava Companheira Matilde. Mas, se repararem, estamos vivendo, em nossas casas, um laboratório fantástico hoje.


Brincadeiras à parte, agora enquanto escrevo, ouço fogos de artifício, que assustam os meus cachorros, ouço gritos do meu vizinho de “Bahêa, minha poha”, que incomodam a minha mãe. Passei por ruas que por hora estavam desertas, mas que, em breve, se tornarão palco de um carnaval. Recebi, momentos antes, a notícia de que meu irmão foi perseguido na rua por alguns caras, creio que por ser torcedor do Vitória, e só não lhe aconteceu nada porque, graças a Deus, ele é bastante veloz e conseguiu chegar à casa de um amigo a tempo.


Sempre que penso no texto que escolhemos pra nossa montagem final, sempre que assisto filmes e vídeos, sempre que discuto sobre o tema, sempre que estudo o texto de alguma forma, me lembro da nossa primeira reunião, onde Elaine levantou o questionamento: Por que montar Campeões do Mundo hoje? E sempre que penso nisso, uma música, ou melhor, algumas me vêm à mente, para responder. Dentre elas uma me chama muito a atenção e reforça pra mim o quão atual é este tema. Que voltou a minha mente, quando pensei na importância que se tornou essa vitória do Bahia.


Como lembrou Lucílio, o tema principal deste texto não é a ditadura. É o poder. O poder que a mídia exerce sobre as pessoas, o poder que a massa tem, o poder que as grandes distrações exercem sobre a sociedade. As pessoas que remaram contra aquela maré de tranqüilidade e progresso que se alcançava com a Ordem estabelecida sob o comando militar, não poderiam, realmente, serem vista com bons olhos.


Hoje não é mais a ditadura que nos oprime. Vivemos num regime democrático. Onde um partido de esquerda assume o cargo político mais importante. Agora sob a batuta de uma mulher, e mais, ex-militante. Não podíamos estar vivendo um período mais diferente do que aquele vivido pelos personagens de nosso texto. Mas tudo é tão igual. O que há de errado, então?


A mídia ainda exerce muita influência em todos. Sem exceções. E esse domínio é cada vez maior, e por meios de comunicação cada vez mais diversos. Fabricam, todos os dias, heróis e vilões, a seu bel prazer. E a população, como se acompanhasse uma novela, esquece o antigo herói assim que aparece um novo. Esquece o antigo vilão, assim que outro faz o que parece ser mais cruel. Mas, como não acredito na existência de um medidor para a crueldade, afirmo: é apenas mais atual.


Pessoas que se manifestavam contra o regime eram punidas, se dessem sorte, eram, de acordo com o “Brasil, ame-o ou deixe-o”, mandadas para fora do país, ou, outras com menos sorte, simplesmente desapareciam. Hoje, experimente denunciar um traficante e ser descoberto por ele. Militantes ainda morrem, aqui, no Amazonas e em outros estados, vira e mexe sai uma noticia por aí. Pessoas se calam por medo.


Alguns pensam que hoje, se comparado ao período, há paz. Que hoje não há uma censura pra nos proibir de falar. Só peço que se lembrem que naquele período também havia pessoas que se viam num mar de paz. E sim, hoje, podemos falar. Não nos faltam meios de comunicação, mas não há pessoas pra ler. Pois a grande maioria prefere não se envolver com este tema e acompanhar as novelas dos heróis e vilões que falei anteriormente.


Isso tudo me veio à mente, ao pensar na vitória do Bahia, e no frisson que isso causou. Adoro futebol, e num Estádio, torcendo pelo Vitória, fico ensandecida. Mas por que todo esse reboliço porque o Bahia subiu? Com tanta coisa acontecendo. Há poucas semanas íamos às urnas para escolher quem exerceria o cargo mais alto na nossa política por 4 anos, sem contar com governadores e os deputados, e nessa hora, cadê o povo? Ouvi muitos reclamarem que esta eleição estava vergonhosa, que, na urna, iriam votar no “menos pior” ... Nessa hora cadê o povo? Todo dia morre um aqui no nordeste (meu bairro), ou um é assaltado a caminho do trabalho, aqui ou em qualquer lugar... Nessa hora, cadê o povo?


Dessa vez, nós, atores, artistas, é que remamos contra a maré. Não podemos seqüestrar um embaixador, pra chamar a atenção do país, mas podemos subir no palco e dizer. O que quisermos, e como quisermos. Não é algo imediato, é um trabalho de formiguinha. Mas lá podemos ser os “ Campeões do mundo”.

Adiamento

Por Fernando Pessoa

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

A Chuva Desce a Ladeira

(Por Fernando Pessoa)
ÁGUA da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.
Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.

Nota importante - Nada pra escrever


Muitas janelas abertas para o mundo virtual, uma mão parada em cima do teclado, o som da tv ligada ao longe, uma música no fone de ouvido, um trabalho da faculdade pesando a consciência, que está tão cansada que se recusa a escrever sequer o cabeçalho. 
Mas a consciência não é a única coisa que pesa. 
Os olhos pesam de sono, o coração pesa de medo, a cabeça pesa de pensamentos, o corpo pesa de cansaço, o passado pesa de mágoa, o presente pesa de dúvidas,  o futuro próximo pesa de expectativas, o futuro distante pesa de sonhos, as relações pesam de fantasia, a vida pesa de imaginação.

sábado, 13 de novembro de 2010

Post inacabado


Faz tempo que não escrevo, diretamente, nada sobre mim. Faz tempo que não escrevo nada sobre o fluxo incontrolável de pensamentos que passam pela minha cabeça a cada segundo. Alguns fazendo uma escala perigosa um pouco mais abaixo. Lá por aquela região sempre tão nebulosa que teimamos em chamar de coração.
Talvez se tivesse tentado não teria conseguido, nunca isso foi tão confuso. 
Tenho amado e odiado pessoas com a mesma intensidade. Ou talvez tenha odiado algumas pelo simples fato de amá-las e não ser amada de volta. Acho que o ego pode ter uma boa parcela de culpa. Tenho gostado racionalmente de algumas outras pessoas. Mas isso é possível? É possível sentir algo racionalmente? Eu que sempre achei que a racionalidade e o sentimento fizessem parte de esferas tão distintas.
Tenho abusado das minhas mudanças de humor, fazendo transições entre os picos, positivos e negativos, de humor com uma velocidade assustadora. Mas descobri ferramentas que mantém a situação mais estável. Mas nunca as uso. Por um motivo muito simples: Não quero. E isso é louco, pois sempre reclamei da minha instabilidade. Por que querer e fazer são tão distantes?
Tenho dito mais as coisas. Ao mesmo tempo que tenho exercitado o não falar. Acho que é mais uma busca , entre o equilibrio do que deve ser dito e do que não. As vezes boto a cabeça no travesseiro e me vejo bem sucedida na batalha daquele dia. Outras, faço o mesmo antes de dormir e choro. Aquelas lágrimas amargas da derrota.
Tenho largado alguns vícios. O de brincar pra esconder a dor, o de desisti sempre que alguma coisa não sai como planejado,  o de beber pra conseguir falar o que estar na minha cabeça., o de usar pretextos para estar perto de alguém. Mas o vício mais pesado que carregava comigo que tenho abandonado é o vício na tristeza. Essa é uma droga terrível, com um alto grau de dependência.
Tenho perdido alguns medos. O de andar pela minha rua à noite, o de ouvir um não, o de assombração, o do escuro, e o da solidão.
Tenho sentido mais sede. De fazer, de correr riscos, de experimentar, de rir, de chorar, de sentir, de emocionar, de trabalhar, de viver.
Isso é o máximo que posso. Foi tudo que consegui pôr pra fora...o resto fica comigo e esse post fica assim...inacabado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Quinta vez, nada mais!

No sábado, assisti, pela quinta vez, 'Uma Vez Nada Mais' e me espantei quando notei que ainda não tinha comentado sobre ela aqui no blog. Resolvi, então, corrigi esta falha! 
Pra começar, irei repetir aqui o que está escrito em todos os programas que peguei, e em todos os resumos pela internet que achei: É uma peça que trata do universo feminino, inspirado no cinema mudo.
Esta última informação me deixou meio receiosa quando fui assisti pela primeira vez. Pensei: Será que aguento assisti 55 min de peça, sem uma fala!? Não só consegui, como nem vi o tempo passar. É uma peça fantástica.
Nem sei o que começo comentando... bom...acho que começarei pela história. Que é muito simples. Uma costureira que passa a peça inteira esperando que seu telefone toque, e ela consiga finalmente falar com seu amado. Ela é responsável pelo vestido de casamento de uma outra mulher que é bem resolvida e já está de  casamento marcado. Esta tenta ajudar a primeira a ser mais orgulhosa mas no meio do caminho sua vida também começa a desmoronar. 
O cenário, que é constituído por duas salas, uma da costureira (Aícha Marques) e a outra da noiva (Maria Menezes). E acho que à primeira vista já cumpre o seu papel de ambientar a peça.O que serve para separar a sala dos "outros cômodos" da casa é um biombo, que não sei se semiológicamente quer dizer alguma coisa, mas que tem as cores invertidas. E de fato a vida delas é uma o avesso da outra.
Tem duas coisas que me fascinam na parte técnica de uma peça: A iluminação e a sonoplastia. Mas merecem destaque nessa peça. Elas "são dois personagens da peça", como disse Maria Menezes no último sábado. E de fato o são. Uma vez que elas não falam nada, os diálogos são estabelecidos com as músicas (não digo nem as radionovelas dubladas por elas) e a iluminação acompanha este fluxo. Isso sempre foi muito claro pra mim, mas no sábado vi a diferença que faz. Como uma "expert " da peça, notei alguns atrasos e alguns adiantamentos no decorrer da peça. Quando terminou Maria agradeceu ao operador de som, que havia substituído o antigo no dia anterior. Estava justificado.
Bem, por último, gostaria de falar do trabalho das atrizes. Isso é, sem dúvida, o que mais chama minha atenção. Algumas vezes esquecemos que estamos no teatro e nos vemos numa sala de cinema de filmes antigos, com direito, inclusive, aos deleys'zinhos oriundos da configuração dos esquemas de filmagem antigos. Maria Menezes e Aícha Marques formam uma dupla maravilhosa.  Não acompanho a carreira das duas para poder usar outros exemplos do sucesso dessa parceria, mas pelo que vi em 'Uma vez, nada mais' se houveram, deram super certo. Não tenho dúvidas.
O trabalho de corpo é incrível, aí falo principalmente de Aícha Marques. Não foi a toa o prêmio de melhor atriz no Braskem desse ano (Quero ser assim quando eu crescer.).
O espetáculo ganhou o prêmio de melhor espetáculo no Braskem e no festival de Guaramiranga, desta vez através do júri popular (o que é melhor ainda, eu acho) e de melhor atriz no Braskem. E ainda não me conformo por ter perdido o de melhor direção. Afinidades à parte, a "costura " do espetáculo foi muito bem feita, e as soluções para o entendimento da trama, sem o uso da fala também são ótimos.
Enfim...parece que vai voltar a ficar em cartaz. Quem ainda não foi, vai lá ver . Se bobiar a gente até se encontra por lá! (hauhauhauhha)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Metade

(Oswaldo Montegro)
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também

Tropeços

 ‘Tropeços’ foi um dos espetáculos trazidos à Salvador pela Mostra SESC de Artes. E indo de encontro a todo o meu planejamento do dia, assisti a esta apresentação, e até hoje não consigo acreditar onde este tropeço pôde me levar.
Ao se sentar na platéia, o público se depara com uma mesa, repleta de velas cobrindo sua extensão, que servirá de cenário para a representação. Em cima desta mesa, encontram-se dois pequenos baús, rodeados por alguns outros objetos pequenos, como, por exemplo, jarro de flores, porta retratos, garrafas e livros. Ao som de uma música triste e melancólica, uma mulher (Katiane Negrão) entra em cena e, com uma vela, acende as  que lá estavam. Passa esta vela para um homem, que coloca um pano em torno da mão e continua a ação iniciada por esta mulher. Aos poucos, como uma música sutil que não se percebe quando começa, notei que não tinha mais ninguém em cena, além de uma velha, materializada pelas mãos deste homem (Dico Ferreira), e vestida pelo tal pano. Lembrei-me então que não sou muito próxima do teatro de animação, mas já era tarde. Já tinha sido arrebatada pelo espetáculo.
Este espetáculo conta a história de duas velhinhas que vivem juntas. Uma viciada em livros e em cigarros de maconha, enquanto a outra passa a peça inteira tentando seduzir a primeira, com jantar romântico, tango, flores etc. Sim, elas são homossexuais. Este enredo, segundo contaram os atores no bate-papo no fim da apresentação, choca ainda em muitos lugares. As pessoas não conseguem aceitar que pessoas idosas ainda sintam prazer com atividades tão banais quanto estas, e nem aceitam o fato de que as pessoas homossexuais envelhecem.  Mas isso não foi, nem de longe, o que mais chamou minha atenção.
O que me fascinou mesmo foi a execução do espetáculo. As mãos dos atores eram muito precisas tanto na manipulação dos objetos dispostos no cenário, quanto na composição das personagens, e com o auxílio da iluminação das velas, a forma do rosto destas, se tornava muito clara.  A fala das personagens se utilizava de um recurso muito conhecido no teatro, chamado gramelot. E este soluciona o possível estranhamento que se criaria caso a comunicação entre as personagens fosse com um texto “tradiocional”. Havia também interações com a platéia, e ver isso acontecer, era como assistir à “dualidade” vivida pelo ator.  Pois eles estavam atentos ao espaço, atentos às reações da platéia, mas respondiam como os personagens. A ponto de nem levantarem a cabeça ao se dirigir, com a mão, a alguém da platéia.
Tropeços foi me ganhando com o riso. Pouco à pouco eu ia me aproximando mais dessas duas velhinhas e ria muito de tudo o que acontecia, bem como todos que estavam ao meu lado. Quando, depois de muitas tentativas, elas se beijam parecia que a sala tinha alcançado o ápice de um possível gráfico de risadas, caso este fosse criado. Nessa hora os dois atores tinham a platéia nas mãos.
Então, uma delas some. Simplesmente some. Tinha morrido. E a que ficou só recomeça todas as atividades cotidianas, que executava com a outra, sozinha. A música melancólica do começo também recomeça, e aos poucos as velas são apagadas. Restando no fim apenas uma, próxima ao centro da mesa, criando um foco de luz na velhinha que estava chorando. Até que esta também se apaga, e enquanto aplaudo, percebo que também estava chorando.
Este final parece piegas, mas foi a melhor forma de descrever minha aproximação com este espetáculo. Foi tudo muito sutil. Exceto a morte. Mas, esta nunca é. E acho que isso justifica o nome do espetáculo. Afinal de contas, existe tropeço maior do que a morte?

sábado, 23 de outubro de 2010

Nota importante - A sutileza dos encontros me fascina.


Na faculdade estou em processo de mostra. E pra me desafiar, escolhi um personagem particularmente díficil, e depois de um tempo me perguntei se não teria sido um desafio grande demais...e bla bla bla. Mas não é sobre isso que vim escrever. Vim escrever sobre uma garotinha e um chiclete.
Hoje, tivemos ensaio e saí especialmente irritada, chateada, e achando que carregava o mundo nas costas, por conta daquela minha velha mania de ampliar as coisas. Depois de um tempo no ponto de ônibus, sob o sol e com fome, chega meu ônibus. Entro e sento-me na primeira cadeira, aquela reservada aos idosos, no lado direito, ligo meu mp4 e começo a mascar chiclete e a me distrair com meus pensamentos.
Em meio a tudo isso, o ônibus no qual estava se aproximou muito do fundo de outro ônibus, que estava mais à frente. Quando acordei dos meus devaneios por conta do quase-choque, vi uma menina, de no máximo 6 anos, olhando pela janela do fundo do ônibus que estava à minha frente. Ela não parecia espantada com o quase-choque, e olhava pra mim e dava risada. Depois começou a me dar lingua. 
Eu não entendi. E fiquei me perguntndo se era comigo . Mas não tinha dúvidas. Era para meus olhos que ela olhava.
Depois pensei...que menina mal educada. Me atacando assim gratuitamente. Parei de olhar pra ela e continuei mascando meu chiclete. Foi então que tentei fazer uma bolinha, e percebi que fazia o mesmo movimento "ofensivo" que a menina fazia. Aí eu entendi! Ela queria que eu fizesse bolinhas. Só isso!
Olhei pra ela de novo. Não sei porque senti a necessidade de lhe dizer que tinha entendido o que ela queria. Quando me voltei para ela, ela já estava com um chiclete...e mais, fazendo bolinhas. Começamos então um campeonato silencioso de bolinhas de chiclete. E eu perdia o tempo inteiro e ria muito com isso! 
Até que o ônibus em que ela estava parou num ponto. Ela acenou pra mim. Eu acenei de volta.E o meu ônibus seguiu. E eu também segui. 


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Censo 2010 - O adivinho


Um recenseador nunca é apenas um recenseador quando está em seu setor.Então aos poucos irei falando sobre as várias profissões que possuimos em nossas andanças.

O ADIVINHO

RECENSEADOR
Meu senhor, quantas pessoas moravam aqui no dia 31 de julho deste ano?

ENTREVISTADO
(com uma cara de 'Meu Deus, isso é óbvio!')
As mesmas de agora!

(O.O)
Bola de cristal, tarot, buzios, runas, quiromancia, horóscopo, psicografia. palitinho, par ou ímpar ou qualquer outra técnica milenar ajudaria mais e seria mais precisa do que isso! 

domingo, 10 de outubro de 2010

Tudo por Ela (Pouur Elle)

Hoje, depois de algum tempo numa correria louca, resolvi criar uma ilha de tranquilidade na minha linha do tempo, e tirei o dia para me dedicar a uma atividade abandonada : FAZER NADA.
Para completar esse momento resolvi sentar e assistir a um filmezinho. Olhei entre os filmes que tinha aqui em casa, já decidida a rever algum que tivesse gostado muito. Foi quando percebi que tinham muitos que ainda não tinha assistido. Dentre eles estava Tudo por Ela (Pour Elle). E bendita seja essa escolha.
Esse filme foi dirigido por Fred Cavayé, e conta a história de um casal francês, Lisa e Julian, que vivia tranquilamente com o seu filho, Oscar, até que Lisa ( Diane Kruger) é presa por assassinato. Depois de ler isso na sinopse pensei: Vai ser um daqueles filmes em que o marido luta e se mete em um monte de confusão pra provar a inocencia de sua esposa e o suspense estaria na descoberta do verdadeiro assassino, ou aqueles em que depois de fazer o espectador achar que a mulher é inocente, mostra que ela era culpada.Me enganei completamente. O que me deixou totalmente presa ao filme. Do começo ao fim.
Pra começar o filme deixa claro desde o começo a inocência da mulher, e de que forma ela foi incriminada, sem nenhum grande complor por sinal, e verdadeiramente por acidente.
Não tinha o que ser feito por Julian (Vincente Lindon). A não ser ver a mulher se matar na cadeia.
Então ele decide tirá-la de lá a força. Planeja uma fuga e a executa sem falar nada com Lisa. E isso poderia ser um fracasso para o suspense que o filme já havia criado, mas a forma como tudo aconteceu foi muito bem pensado.
Tinham muitos elementos de risco para o plano Julian, o que me dividia entre a certeza de que o plano daria certo, e que ele seria descoberto e teria que pagar por todos os crimes que cometeu. Coisas pequenas, como a foto de Lisa que chega no aeroporto a tempo de serem pegos, e o guarda que tinha visto ela entrar  troca com um outro que tinha acabado de chegar. Ou o passaporte falso que é visto pelo pai de Julian, e até certa parte do filme não se tem certeza de que foi recolocado no lugar em que foi encontrado.
Enfim. Superindico. Principalmente àqueles que estão cansado de filmes com mocinhos, injustiçados ,bonzinhos.

Meu compadre Roque

Na última sexta feira, depois de séculos sem ir a um show de Mari, fui à Praça Pedro Arcanjo, assistir ao seu mais novo show: MEU COMPADRE ROQUE. Esse show é em homenagem ao grande, e tão pouco valorizado, compositor baiano Roque Ferreira, que além de um grande amigo pessoal da cantora, foi muito importante para a sua carreira desde o começo, lhe presenteando com músicas lindíssimas como Abre Caminho, Cantigas de cangaceiro, Flor de Muçambê, Nonô, entre outras, em seu primeiro disco.
O repertóriodo do show é de alguma novas composições de Roque, e uma revisitação a algumas dessas músicas antigas já cantadas por Mariene de Castro em seus trabalhos antigos.Com os músicos sempre bem entrosados, com músicas tão lindas, com muitas flores e toda a luz de Mari, o show é lindo, e nem tinha como ser diferente.
Pra quem ainda não foi, fica a dica
.
Todas as sextas de outubro às 20 hrs, na Praça Pedro Arcanjo.
Ingressos: R$ 5,00 (inteira) e R$ 2,50 (meia)

Foto retirada do seguinte perfil :http://www.facebook.com/#!/salvadorupdate

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

CENSO 2010 - Enquanto estamos à sós


Manhã de sábado. O sol não estava tão forte, embora já fosse quase 11 da manhã, e resolvi encarar a ladeira, que mais parecia uma montanha, de tão íngreme, e tentar realizar a minha cota de entrevistas do dia. Cheguei na casa indicada no meu computador de mão e através do portão podia ver uma senhora, que já deveria ter uns setenta e poucos anos, em pé olhando através de sua janela para o quintal de sua casa. Procurei uma campanhia e depois de não achar comecei a bater palmas. Depois de algum tempo ela notou minha presença, e eu calmamente me apresentei.
EU
(Aos gritos)
Oi. Eu trabalho para o IBGE.A senhora pode responder ao CENSO agora?!

Ao vê-la sorri, fiquei tranquila, afinal de contas tinha garantido um questionário nesse dia (e no começo da pesquisa isso sempre empolga). Esperei ela vir abrir, mas ela continuava parada, apenas sorrindo.

EU
(Meio sem graça)
Senhora?! A senhora pode responder ao CENSO agora?

SENHORA
(Ainda sorrindo)
Hã?!

EU
CENSO senhora? IBGE? A senhora pode me atender agora?

SENHORA
(Já sem sorri)
Hã?!

EU
( Já impaciente
CENSO!! IBGE!!

SENHORA
Hã?!

Contendo toda minha impaciencia, conforme fui treinada, fiz um gesto para que ela se aproximasse do portão, e ela assim o fez.

EU
(Agora aliviada por poder falar baixo)
Senhora, pode responder ao CENSO agora?

SENHORA
(bastante incisiva)
Olha minha filha, volte outro dia. É que agora eu estou muito ocupada.

EU
(Tentando ser convicente)
Mas senhora, nós não deveremos gastar mais do que 5 minutos. É super tranquilo.

SENHORA
Olha minha filha, eu estou cozinhando agora, não posso te atender.

EU
Mas se a senhora precisar parar no meio da entrevista eu posso esperar sem problemas.

SENHORA
(bastante incisiva novamente)
Nããão, minha filha. Eu sou muito responsável.

Quando achei, enfim, que a batalha estava perdida e que eu teria que realmente voltar outro dia, uma mulher aparece na janela no andar de cima.

MULHER
É recenseadora, é?!

EU
(quase que em tom de urgência) 
Sim

MULHER
Espera que eu já vou descer.

A senhora deixou que a mulher, que apareceu, abrisse o portão pra mim, e parece não ter notado o que a mulher me disse
MULHER
( Sussurrando)
Ela não é muito certa não. Na ausência do meu irmão, que é marido dela, eu respondo pela casa.

EU
Certo.

Depois das apresentações, sentei me confortavelmente na varanda e comecei a entrevista. Para completar a minha saga, esta casa foi escolhida para responder ao questionário mais completo, com aproximadamente 80 questões. A Mulher até que respondia rápido, se comparada a outras figuras que encontrei pelo caminho, e a Senhora, que não podia me atender por estar ocupada, supervisionou a entrevista toda, em pé ao meu lado. Quando chegamos nas perguntas referentes ao trabalho e escolaridade a Mulher teve que entrar, ligar para o irmão para obter as informações necessárias. Fiquei a sós com a Senhora.

SENHORA
(suspirando)
Ah! Como eu sinto falta do meu trabalho.

EU
Imagino!

SENHORA
Eu trabalhava na MESBLA. Conhece?!

EU 
MESBLA?

SENHORA
É...não é do seu tempo.Era uma loja que vendia de tudo. E eu tinha cargo de chefia lá. Quando eu chegava só via as pessoas correndo: " 'É'vem dona Senhora".

EU
(risos)

SENHORA
É..eu era muito rígida.

A Mulher voltou e continuamos nossa entrevista. Até que por algum motivo, que não me recordo ,a Mulher teve que entrar um pouco, e fiquei novamente sozinha com a senhora.

SENHORA
(suspirando)
Ah! Como eu sinto falta do meu trabalho.

EU
Imagino!

SENHORA
Eu trabalhava na MESBLA. Conhece?!

EU 
MESBLA?

SENHORA
É...não é do seu tempo.Era uma loja que vendia de tudo. E eu tinha cargo de chefia lá. Quando eu chegava só via as pessoas correndo: " 'É'vem dona Senhora".

EU
(riso amarelo)

SENHORA
É..eu era muito rígida.

Depois de um silêncio constrangedor, a Mulher voltou e finalizamos a entrevista.Chegou então a hora de fazer a entrevista da casa da Mulher, e ela achou melhor  fazermos isso na casa dela, no andar de cima.

MULHER
Espera um pouquinho que eu vou prender o cachorro. Porque ele é todo mal-educado e fica em cima das visitas.

EU
Certo.

Fiquei sozinha, pela terceira vez, com a Senhora.

SENHORA
(suspirando)
Ah! Como eu sinto falta do meu trabalho.

EU
Imagino!

SENHORA
Eu trabalhava na MESBLA. Conhece?!

EU 
(tentando ser doce)
Não

SENHORA
É...não é do seu tempo.Era uma loja que vendia de tudo. E eu tinha cargo de chefia lá. Quando eu chegava só via as pessoas correndo: " 'É'vem dona Senhora".

EU
(riso muito forçado)

SENHORA
É..eu era muito rígida.

Quando a mulher voltou eu a acompanhei quase que a empurrando pelas escadas, tentando me afastar o mais rápido possível daquela senhora que me obrigava a forçar o riso. Quando chegamos no andar de cima, vi que ela tinha vindo atrás, para superviosionar essa entrevista também. Olhava fixamente para a Mulher que entrevistava, com medo de que a Senhora achasse que eu queria ouvir alguma história dela se a olhasse. Tudo correu bem, sem nenhuma interferência.

EU
Pronto senhora. Encerramos. 
(Passando o PDA)
Só preciso que a senhora assine aqui.

MULHER
(Enquanto assina)
Quer um bolinho e um café?

EU
(docemente)
Não.

MULHER
(Me entregando o PDA e já saindo)
Ahh! Que nada...Vou pegar sim. Pra dar energia pra trabalhar.

EU
(rindo)
Tá bom.

Quando olhei pro lado, percebi que tinha ficado novamente sozinha com a Senhora.

SENHORA
Você trabalha desde quando com isso?

EU
(Aliviada)
Comecei ontem.

SENHORA
(suspirando)
Ah! Como eu sinto falta do meu trabalho.

EU
Imagino!

SENHORA
Eu trabalhava na MESBLA. Conhece?!

EU 
(apática)
Não

SENHORA
É...não é do seu tempo.Era uma loja que vendia de tudo. E eu tinha cargo de chefia lá. Quando eu chegava só via as pessoas correndo: " 'É'vem dona Senhora".

EU
(pequena contração muscular na face, semelhante a uma tentativa de sorriso)

SENHORA
É..eu era muito rígida.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Nota importante- Não deixe nada pra depois

Não, esse não será um post para comentar a música de Pitty. Nem será um post com textos dignos de livros de auto-ajuda.Será apenas um post para compartilhar uma pequena afliçãozinha, que apesar de tantos diminutivos, incomoda bastante.
Aposto que vocês já se viram na seguinte situação:
Você tem muitas coisas para escrever (A), dentre essas coisas, metade são coisas que você DEVE escrever (B) e a outra metade são coisas que você QUER escrever (C). 
Logo: 
[ A = B+C ]

Até aí tudo certo, não?
Dentre as coisas que deve escrever (B), um terço você já deveria ter escrito(D), um outro terço são de coisas que ainda estão por vir(E), e um outro terço são de coisas que vc deve, mas também quer escrever (F).
Logo:
A = B + C , e sendo B = D+E+F, A = (D + E + F) + C, lembrando que F pertence [Quer].

Já tá complicando, não é? Mas não acabou.
As coisas que vc quer escrever estão na mesma situação das que você deve escrever: Um terço você já deveria ter escrito(D'), um outro terço são de coisas que ainda estão por vir(E'), e um outro terço são de coisas que vc quer, mas também deve escrever (F').

Logo:
A= B+C, e sendo C = (D'+E'+F'), A = [(D + E + F) + (D'+E'+F')]

Quando você se dá conta do tamanho que já está a sua equação começa a ficar paralisado, e não escreve nada. Ou seja, rendimento zero!
E situação vai crescendo, como essa sutil imagem que escolhi para ilustrar o blog.


Bem...é assim que estou!
Fiz essa maluquice toda aí em cima pra explicar que vou começar a escrever o que der na telha...o que significa que não seguirá uma ordem cronológica. Não se assustem! Pois os comentários do Filte, aparecerão entre os comentários atuais e os do CENSO...enfim!! Uma loucuuura! =D
Vamo que vamo!!! \o/


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Fabuloso destino de Amélie Polain

Depois de uma amiga insisti muito para que eu assistisse "O Fabuloso destino de Amélie Polain" (Tudo bem, podem me chamar de E.T. , mas até hoje eu não tinha assistido), o fiz, para pelo menos ela parar de repeti "E aí, já assistiu Amélie Polain?" a cada conversa da gente.
Que filme lindo!!! Simplesmente amei!Sempre me emociono com personagens apaixonados, sonhadores, ingênuos e tão cativantes quanto Amélie Polain.
É uma trama tão fantástica ( no sentido de extraordinário mesmo), mas tão 'amarradinha'. E pra garotas tão sonhadoras, como eu, e acho que até pra quem não é, é bastante inspirador. Com atores maravilhosos como Audrey Tautou (Amélie), que esbanjava doçura e ingenuidade com aquele sorriso estampado no rosto e aquele olhar debaixo pra cima, e Serge Merlin como o pintor excêntrico que de formas sutis, e outras nem tanto assim, ajudou Amélie a acordar pra realidade.A trilha sonora nem comento. Sou uma apaixonada por Yann Tiersen, e isso já diz muito.
Se houverem mais E.T's como eu, lendo esse post, vá até a locadora mais próxima e vá se emocionar com essas história que segundo a crítica, segue seu caminho de fábula, de romance, de histórias “como as de antigamente, que não existem mais”.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mary & Max

Depois de ler alguns Twittes e Retwittes de uma professora, Denise Coutinho, sobre o filme, fiquei curiosa e fui assisti. Fantástico!
O filme é ambientado entre 1976 e 1998 e conta uma história de amizade cultivada através da troca de cartas entre Mary Dinkle, uma menina solitária de 8 anos que vive num subúrbio de Melbourne, e Max Horovitz, um homem de 44 anos que sofre de compulsão alimentar, obesidade grave, síndrome de Asperger, mora em Nova Iorque, é judeu e ateu.
"Vínculos são sempre virtuais, pois somos tecidos de fantasias, quer elas sejam vendidas ao outro por escrito ou de forma presencial"
(http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/?topo=77,1,1).

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Álvaro de Campos, 15-1-1928

Torre de Babel

Há pouco tempo atrás ( não me recordo a data exatamente) fui assistir a peça de formatura da diretora Marcelle Pamponet,  lá na Escola de Teatro.
O texto escolhido foi Torre de Babel, texto de Arrabal. Essa peça fez parte da programação do circuito Torre de Arrabal. Não sei de quem é a organização desse evento, mas isso também não importa. O que vim falar foi o quanto foi bem feito.
Foi simplesmente maravilhoso. Texto incrível (que eu não conhecia), direção fantástica, cenário impecável, figurino lindíssimo , e atores de deixar a platéia de queixo caído. Quando cheguei na platéia já fiquei maravilhada com o cenário e com a presença de Simone Brault no trono de Latidia. E quando saí ainda tinha a barriga doendo de tanto rir de Mareda e da bêbada, maravilhosamente interpretadas por Vera Pessoa, que roubou a cena várias vezes.
Pra não dizer que não discordei de nada, acho que a iluminação podia ter sido mais.
Enfim..foi ótimo. Tanto que assisti duas vezes, e não assisti mais por falta de oportunidade.
Parabéns Marcelle e toda a equipe. Mas sei que não teria um presente melhor do que estréiar diante do próprio Arrabal.

Conversa com Celso Nunes

Fui informada que no dia 26 de agosto, na sala V da Escola de Teatro, haveria uma conversa com o, já consagrado, diretor teatral Celso Nunes.
Confesso que até este dia não sabia nada a respeito dele. A não ser que tinha trabalhado algumas vezes com Fernanda Montenegro. Tá que o foco da conversa seria sua experiência com Grotowski, mas ainda assim a informação que tinha sobre ele contou bastante na hora de me fazer sair de casa, depois de uma tarde cansativa de trabalho.Mas preciso assumir: Que conversa fantástica!
Ele começou contando como foi sua experiência para montar um de seus trabalhos baseados no trabalho de Grotowski: O albergue. Uma espécie de espetáculo depoimento, baseado na realidade que os atores viviam nos albergues e as condições de trabalho que tinham.
Contou que precisariam de no minimo 12 horas de trabalho por dia, por pelo menos um ano, para que alcançassem algo parecido com o trabalho proposto por Grotowski. Tempo que eles não tinham.Então ele resolveu trabalhar com o que os atores já tinham, e deu alguns desafios para que eles "vencessem".
Um que chamou minha atenção foi o caso da mulher que tinha medo de passar por uma praça à noite, pois só tinham prostitutas e ela tinha medo de ser presa como uma delas. Resultado: ela teve que se passar por uma prostituta. Chegou a conversar com os "clientes", negociava, ouvia suas propostas e por aí vai! No fim das contas conseguiu dados preciosos.
Depois contou sua experiência diante do excêntrico Grotowski. Falou sobre as qualidades que ele achava indispensáveis ao ator que gostaria de seguir por esse caminho, como sensibilidade, inquietação diante do mundo e espiritualidade.
Foi uma conversa muito tranquila, engraçada e animadora. Mas dentre as frases que disse,uma ainda reverbera em minha cabeça:
"Ela era extremamente frágil, e por isso, uma grande criadora"

Nota importante - Amores não correspondidos

"Descobri que quase tudo que já foi escrito sobre o amor é verdade.
Shakespeare disse: "encontro de amor é jornada finda". Que idéia maravilhosa! Pessoalmente, eu nunca passei por nada parecido com isso. Mas estou convencida de que Shakespeare já. 
Suponho que penso no amor mais do que deveria; me admira o grande poder do amor em alterar e definir as nossas vidas.
Shakespeare também disse que o amor é cego. 
Isso é uma coisa da qual eu tenho certeza. 
Para alguns, sem explicação, o amor se apaga. Para outros o amor simplesmente se perde.. ou brota quando menos se espera, mesmo que seja só por uma noite.
No entanto, existe outro tipo de amor. 
O mais cruel... aquele que quase mata suas vitimas. Chama-se "amor não correspondido". E eu sou especialista nele. 
A maioria das histórias de amor falam das pessoas que se amam mutuamente. Mas, o que acontece com os demais? E as nossas histórias? Aqueles que se apaixonam sozinhos? Somos vitimas de uma relação de mão única. Somos os amaldiçoados dos amantes, somos os não amados. Os que caminham feridos, os deficientes sem uma vaga exclusiva..." 
(Trecho do filme O amor não tira férias)

domingo, 29 de agosto de 2010

Nota importante - Abandono


Aff...abandonei meu pobre coitado blog!
Tomarei vergonha na minha cara e acabarei com isso em breve!!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

E se, e somente se.

E se hoje eu resolvesse dizer só a verdade? Quantas pessoas eu conquistaria? Mas em contrapartida, quantas magoaria? E o que valeria mais à pena?
E se ontem eu tivesse lido aquele livro, o que eu teria feito hoje, enquanto estava sentada no ônibus à caminho da faculdade? Mas quantos livros deixei de ler por ainda não ter completado essa leitura?
E se antes de sair, bebesse um copo de água? Ou não tivesse voltado para trancar a porta que havia deixado aberta? Teria encontrado, exatamente quem meu coração queria encontrar, no lugar em que estava, em frente a uma faixa de pedestres, em meio a uma multidão, esperando que o sinal vermelho se acendesse?
E se não gostasse de animais? Será que teria algum para gritar que se calassem? Mas teria dado tantas risadas com demonstrações de "personificação", ou com  tentativas fofinhas de chamar atenção, com os bichinhos de quem?
E se eu gostasse de pagode, ao invés de música clássica? E se preferisse suco de beterraba, ao invés do de laranja? E se preferisse macarronada ao invés de lasanha?
E se naquele dia eu tivesse chorado, ao invés de sorrido? Se ao invés de calar eu tivesse gritado? Se ao invés de fugir eu tivesse tentado? Se ao invés de cortar os cabelos, eu tivesse pintado? Se ao invés de abaixar a cabeça, eu tivesse encarado? Se ao invés de falar eu tivesse escutado? E Se ao invés de tanta coisa, eu tivesse feito outras tantas coisas?
Se apenas uma coisa tivesse sido diferente, todo o resto também seria. 
Se apenas um segundo tivesse sido diferente do que foi, nada seria como é. 
E nunca saberei de que forma seria melhor, porque, afinal de contas, as coisas que nunca fiz, as palavras que nunca disse, os lugares por onde nunca passei serão, para sempre, suposições. E nada mais.
Se, e somente se....

sábado, 7 de agosto de 2010

Cutucadinha inesperada

Um mesa de bar. Amigos em volta. Algumas cervejas. Tudo propiciando um momento mais do que agradável de relaxamento e distração.
Na mesa,um ator, até então, desconhecido pra mim, e um texto na mesma situação.Texto que me fez parar e ouvir atenta. 
Mesmo com pessoas discutindo, em voz alta, alguma coisa ao meu lado, mesmo com pessoas chamando o garçom, mesmo o garçom caminhando até elas, mesmo a dona do restaurante falando seu chinês rápido com um de seus funcionários, mesmo com isso e com aquilo, era só o texto que conseguia ouvir.
E ouvindo esse texto, meu coração e minha mente voaram para longe (ou talvez nem tão longe assim). E representada em palavras que queria dizer, atitudes que queria tomar e coragem que queria ter, sonhei. Sonhei dormindo, sonhei acordada. E continuo sonhando.

"Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas me sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.
Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelha, os dentes se chocam, leve rufdo, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos.
Pensei em você. Eram exatamente três da tarde quando pensei em você.
Sei porque sacudi a cabeça como se você fosse uma tontura dentro dela e olhei o digital no meio da avenida.
Corre, corre, O número do telefone dissolvendo-se em tinta na palma da mão suada. Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos,[...]"

Caio Fernando Abreu